terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Reflexões de um homem de 3/4 de idade (6)



Tive um insight semi-filosófico de difícil analogia. Para um mínimo entendimento é preciso começar lembrando uma confissão de Samuel Rosa (Skank) na qual ele se declara um letrista meia-boca. Sua autocrítica bate no fato de que ele não consegue evitar as interjeições que vira-e-mexe são embutidas nas composições.
Não confundir com as onomatopéias, como em Cigarra (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos) onde o cicicicicicicicicicici imita o som do inseto e, portanto, tem sua função. Ou o Ratá-tá tá tá Tatá-rá tá tá Ratá-tá tá tá da metralhadora de Era um garoto como eu que amava os Beatles e os Rolling Stones (M. Luzini e F. Migliacci - Versão de Brancato Júnior). Fagner, em Ave Coração (Clodo/Zeca Bahia), uma linda canção diga-se de passagem, dá uma exagerada em sua imitação de pássaro louco, uma espécie de gralha com dor de barriga, mas digamos que isso também faça parte da interpretação da música.
O meia-boca que Samuel Rosa se refere pode ser encontrado em Óculos (Herbert Vianna), um dos primeiros hits dos Paralamas do Sucesso - "`Por que você não olha para mim - ô ô / me diz o que é que eu tenho de mal ô ô / Por que você não olha para mim? / Por trás dessa lente tem um cara legal / Oi Oi Oi Oi Oi". Tem uma megahit-brega, do Ovelha, talvez o maior representante desse tipo de construção - "Uou uou Iei iei / Sem você não viverei". Uma rima pobre que funciona.
Há uma outra letra de gosto duvidoso, Faz mais uma vez comigo (César Augusto), sucesso de Zezé Di Camargo e Luciano - "Faz mais uma vez comigo uou uou uou / só mais uma vez comigo". Não bastasse o triste pedido, fica a dúvida: que significa esse "uou uou uou", seria o que se quer fazer? Logicamente que não. O uou uou uou é só uma forma de completar a música, encaixar a letra nela, fazer a liga. Não seriam tecnicamente sequer interjeições, já que não exprimem nada, mas se suprimidas, perde-se o tchan.

Entendido isso, penso que nem tudo na vida da gente precisa fazer sentido, e às vezes precisamos mesmo é de um uou uou uou.

Yeah!

9 COMENTÁRIOS:

aeronauta disse...

Como você entende bem de tema e forma, de música, de interpretação! Um show! Sem contar o humor fino, sempre refinado. Bjos

Tantan disse...

UAUUUUUU...hehehehe....uia....kkkkk!!!!É pic,é pic, é pic ,é pic,é pic... ra-tim-bum!!! Celsinhoooooo!

Chiz disse...

Talvez você conheça, Chorik, ou não, uma piada sempre repetida acerca da atual música baiana, também chamada de axé/pagode, que exagera nesse recurso interjeicional com segundas e terceiras intenções, quando não escrachadamente. A tal piada mostra que até um surdo-mudo é capaz de "compor" um sucesso do "axé music", assim: "Aê-aê-aê-aê-ê-ê-ê-ou-ou-ouou!..." Dá até pra ensinar as vogais assim...

Lidi disse...

Parabéns pra você ê ê ê (desculpe, amigo, me empolguei). Sou tua fã, Chorik. Abraço grande!

Tania regina Contreiras disse...

Oxente, que disso meus ouvidos baianos entendem bem e odeiam bem...É tanto ô, ô,ô, êêê, queai, ai, ai, ai, ai, ai e ui! Não aguento! :-)
Feliz aniversário!!!!! Fica bem aí nesse novo ciclo, cheio de saúde e de prosa boa e divertida!
Beijos,

Maria Muadiê disse...

rsrs...
isso mesmo, precisamos muito.

Cora disse...

... os "meia-boca" também amam...rs

Chorik, velho de guerra,

Feliz dia, cara pálida!

Beijos e brigadeiros.

Pra sempre Rosana disse...

Show de bola yeah yeah!!!! yeah yeah! ( a la Sérgio Malandro)

Denise disse...

Mesmo em enorme correria em um projeto novo,não poderia deixar de vir aqui.Desejar paz para vc e todos que lhe são importantes.

Saudades!
Denise