13 de julho de 2009

Vida delivery



Essa narrativa é sobre um tempo anterior às refeições prontas, congeladas, compradas atualmente em supermercados. O forno de microondas era caríssimo. Vivíamos o período pós-reuniões de tupperware e precisávamos encontrar utilidade para aqueles vasilhames todos empilhados nos armários da cozinha. Não havia propriamente uma linha de produtos alimentícios voltados aos singles, fossem solteiros, descasados ou gays, ou às mulheres-executivas-sem-tempo-para-a-cozinha. Pensando bem, é de um tempo em que sequer havia mulheres executivas.

Após o meu divórcio com S., durante a entressafra de esposas, vivi quase um ano sozinho naquele apartamento.

(O cara-pálida pode estranhar, mas com a separação fui eu quem ficou com o apê, todo mobiliado. E fiquei com o chevettinho também, e olha que ele era equipado com Roadstar e teto solar, um chuchu. S. levou, por sua decisão, apenas suas roupas, seus discos e livros e todos os amigos em comum. Foi tão dolorido me separar de alguns deles que tive de pedi-los emprestado para gravar. É isso mesmo que você leu, gravar, pois senti falta foi dos long-plays, quem já se separou sabe como são complicadas essas coisas. Telefonei e ela emprestou. Gravei em fita cassete de cromo e devolvi os bolachões sem nenhum risquinho.
E nunca mais nos falamos.)

O apartamento era simples e ficava num prédio pequeno, com poucos condôminos e, embora poucos me conhecessem, muitos me comentavam, sabia disso pelas minha orelhas sempre a queimar. Dois andares acima morava I. com esposa e filhos. I. era um colega de departamento da empresa onde eu trabalhava e por intermédio dele todos ali ficaram sabendo de um detalhe da minha intimidade.

(I. tinha um ofício que o obrigava a viajar muito pelo interior de São Paulo. Embora eu tivesse outra função, naquele período eu também saltitava muito de cidade em cidade. Certa feita, houve coincidência de rotas e com ele dividi o quarto de cada hotelzinho fuleiro onde pousávamos, tudo a fim de economizar. A cada partida eu notava a mala de I. mais rechonchuda, quase a ponto de explodir, até que numa das últimas cidades, creio que foi em Santo Anastácio, ele requisitou um espaço na minha mala. É que I. tinha por hábito surrupiar os rolos de papel higiênico e levá-los para casa. Só naquela jornada foram 16. Cada um com o souvenir que merece.)

Mal-acostumado, sobrevivi às custas do auxílio de uma passadeira, uma que deixava em minhas roupas sua marca registrada, o duplo vinco, além de uma diarista dedicada, que mantinha o apartamento brilhando e cheiroso, pena ela ter péssimo gosto para perfumes. Mas meu apuro mesmo, cara-pálida, era na cozinha. Foi por conta dessa minha inaptidão que I. relatou sem dó na reunião do departamento:

-- Lá no condomínio, quando chega a pizza todos sabem que é para o Chorik. (risadas no recinto)O porteiro manda subir direto. (mais risadas) A gente liga para a pizzaria e quando damos o endereço dizem: ah! é o prédio do Chorik. (gargalhadas) O pessoal sabe que o Chorik já chegou quando sente o cheiro da pizza. (mais gargalhadas)

Foi realmente um ano difícil. Suportei graças àquelas fitas cassetes, reverberando minhas noites insones na escuridão daquele apartamento, enquanto sobre a pia o prato dormia com alguns caroços de azeitona.
*¨*

Pois a pizzaria daquele bairro tinha um dono, e esse mesmo dono veio parar onde? Sim, ele abriu três aqui em Americana. Zezé o conheceu visitando sua casa, posta para locação recentemente. Veio para cá depois que um japonês parou de comprar pizza...

17 COMENTÁRIOS:

Maria Muadiê disse...

;)

Renata Belmonte disse...

Ah, fiquei com vontade de comer pizza!(rs)
Bjs

maria guimarães sampaio disse...

o final é o que há!

APPedrosa disse...

Esse dono da pizzaria sabe como aproveitar uma oportunidade de negócios. Vai ver é ele que boicota o auguel das casas, para você não ter cozinha e voltar a viver de pizza.

Nilson disse...

Esse blog é, realmente, uma delícia. E eis uma história realmente redondíssima, como uma pizza de Americana. Muito bem escrita inclusive, pois, pois.

aeronauta disse...

Como sempre, amei seu texto, Chorik! Você é um cronista de mão cheia.
Os parênteses são ótimos. Desenvolva-os noutro post.
Adorei a história das fitas.
E, claro, das pizzas.
Abraços.
P.S.: Me ensine, amigo, por favor, a colocar música no blogue!

Lidi disse...

Uma bela pizza salva qualquer um que não gosta de (ou não sabe) cozinhar. :) Um abraço!

aeronauta disse...

Chorik, esse pedido meu aí, sobre como colocar música no blogue, é pra valer. Quando você puder, me escreva contando, por favor, te peço. Meu email: bemilydickynson@yahoo.com.br

Lidi disse...

Chorik, obrigada pelo comentário em meu blog! Um abraço!

Bel Butcher disse...

O mundo é uma azeitona em cima de uma pizza! pequeninho.

Infelizmente, por essas bandas a pizza não é lá grandes coisas, apesar de que, reza a lenda, francês é o segundo ou terceiro a comer a iguaria paulistana, oops, quer dizer, italiana.

Agora, a pergunta que não quer calar: por que aí (ok, não é em todo lugar) a mussarela é opcional?? Volta-e-meia esquecia de pedir "pizza com mussarela" e aí vinha ela com os ingredientes do sabor e aquele molho de tomate que roubava todo o gosto...

rm disse...

Rss

Mas peraí, Japa: por que você parou de comprar as pizzas?

Não, não tenho blog disse...

Que safado o cara do papel higiênico!! E vc foi um lorde de não ter feito uma piadinha à altura, do tipo: "e lá no prédio, quando alguém dá descarga, todo mundo sabe que é o I., porque ele precisa dar conta de tanto papel furtado"!!
Maravilha de post!
Um beijo,
Mariana

Não, não tenho blog disse...

Mentiiiira!!!
Só agora vi o book da Zezé! Um luxo!! Arrasou!!
Beijos pra nossa top model!

Bárbara Jolie disse...

japa Chorik sempre fico encantada com seus textos, são uma delícia, muito mais saborosos que as pizzas desse ano solitário.

ana k. disse...

lá em casa, quando eu era criança, o sufoco era miojo...
mas, realmente o cara do papel higiênico... impressionante o sujeito queimar a mufa para economizar no papel, tem todo tipo de gente no mundo mesmo.

aeronauta disse...

Oi, Chorik, fiz tudo direitinho, só não consegui levar a música. Na hora de colar, o mouse não disponibilizou. O que faço?

Chiz disse...

Gosto muito de textos com intertextos entre parênteses... é como se a linha central do pensamento tivesse ramificações. É como as reticências, que parecem dizer muito mais que aquilo que se escreveu. É quase como um etc.