
Uma postagem do blog da minha amiga Verônica fez com que eu me lembrasse de um pseudo-romance que li há tempos, talvez 20 anos atrás, o maravilhoso “A Insustentável Leveza do Ser” (1984), de Milan Kundera. Se você só viu o filme do Philip Kaufman (1988) não vai querer ler o livro. Se não viu e nem leu, só leia.
Não me meto a discutir filosofia, não tenho bagagem cultural e nem coerência mental para isso. Mas li algumas obras de Nietzsche, e assim como a todo filósofo, especialmente o existencialista, na minha modesta opinião, falta-lhes a liga, ou mais modernamente, o link entre a lógica da existência física e a lógica do espírito. Calma, cara-pálida, não quero falar de Kardec de novo. Em outra postagem eu explico porque a Doutrina Espírita compilada por Kardec me alivia de todos os incômodos dogmáticos de outras religiões.
Mas, voltando ao assunto, separei um pequeno trecho que o texto da Verônica me conduziu.
Capítulo 17
Desde o primeiro dia de ocupação que os aviões russos se cruzavam durante toda a noite no céu de Praga. Tomas desabituara-se do barulho e não conseguia adormecer.
Virava-se na cama, ao lado de Tereza já a dormir, pensando no que ela lhe dissera há vários anos no meio de uma conversa banal. Estavam a falar de Z., um amigo de Tomas, e Tereza declarara: ''Se não te tivesse encontrado, tinha me apaixonado por ele.''
Já na altura, essas palavras o tinham feito mergulhar numa estranha melancolia. Com efeito, compreendera de súbito que Tereza se apaixonara por ele e não por Z. perfeitamente por acaso. Que, para lá do seu amor por Tomas, já realizado, havia no reino dos possíveis um número infinito de amores não realizados por outros homens.
Achamos todos que é impensável que o grande amor da nossa vida seja algo de leve, algo que não pesa nada; supomos que já estava escrito que o nosso amor tinha de ser o que é; que a nossa vida não era a mesma sem ele. Estamos todos convencidos de que o próprio Beethoven em pessoa, com o seu ar carrancudo e os cabelos em desordem, toca o seu Es muss sein! em homenagem ao grande amor da nossa vida.
Ao lembrar se do que Tereza dissera de Z., Tomas constatava que a história do grande amor da sua vida não estava marcada por um ''Es muss sein'', mas antes por um ''Es konnte auch anders sein'': podia muito bem ser de outra maneira...
Sete anos antes, declarara-se por acaso um surto muito grave de meningite no hospital da cidade de Tereza e o chefe do serviço onde Tomas trabalhava fora chamado de urgência. Mas, por acaso, o chefe do serviço estava com ciática e, como não se podia mexer, Tomas fora em seu lugar a esse hospital de província. Havia cinco hotéis na cidade mas, por acaso, Tomas instalara-se no hotel onde Tereza trabalhava. Por acaso, ficara com uns momentos livres antes de ir para o comboio e fora sentar-se na cervejaria. Tereza estava, por acaso, de serviço e, por acaso, estava de serviço à mesa de Tomas. Fora portanto necessária toda uma série de seis acasos para fazer chegar Tomas até Tereza, como se, entregue a si próprio, nunca tivesse podido encontrá-la.
Regressara à Boêmia por causa dela. Uma decisão tão fatal tinha a sua raiz num amor a tal ponto fortuito que nem sequer existiria se, há sete anos, o chefe do serviço não estivesse com ciática. E essa mulher, essa encarnação do acaso absoluto, estava agora deitada a seu lado a dormir e a respirar profundamente.
Maravilhoso! Embora eu não acredite em acasos. Mas isso é tema pra mais de um post. Valeu, Verônica!
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