8 de fevereiro de 2010

Aspargos e figos


O paladar talvez seja o mais dependente dos sentidos. Água na boca temos pelo olfato e pela visão. A ingestão quase sempre se concretiza à mercê desses dois sentidos. O paladar só vai ratificar ou não o acerto da escolha. O replay, esse sim é por conta do paladar. Mas o paladar também pode ser volúvel.
Foi depois de adulto que eu fiz as pazes com a beterraba e a chicória. Chuchu, abobrinha, alface, escarola, berinjela, agrião, repolho, acelga, couve-flor, espinafre, palmito, cenoura, couve-manteiga, tomate, pepino, cebola, alho, salsinha, cebolinha, batata, mandioquinha e inhame sempre fizeram parte do hit parade vegetal e leguminoso da minha dieta infantil, sem maiores dramas aeroviários. Em Americana, vejam que loucura, somente aqui, comecei a comer rúcula. E ando namorando a couve de bruxelas, um repolhinho bonitinho mas ordinário.
Frutas como todas, exceto uma. Dito isso, podemos finalmente sobre o meu esquisitismo.

Aspargos e figos nunca comi e nunca gostei. Isso mesmo, nunca provei e nunca gostei. Vejo um aspargo, cheiro um figo, mas não os coloco na boca, não sei o gosto que têm. E detesto. É subconsciente, é trauma de vida passada. Não há explicação racional para isso. Será porque seus aspectos lembram órgãos sexuais? Mas o figo ... não, não deve ser por aí.

Diferente do meu asco por coentro. Apesar da diferença das folhas, fico p da vida quando vou ao supermercado e trago coentro ao invés da salsinha. Eu não suporto o cheiro e o gosto do coentro. Coentro é um furta-sabor. Coloque-o na mais deliciosa moqueca e só se sente o coentro. No feijão, então, é um pecado.

Zezé adora coentro. Adora aspargos e figos. Pudera, ela também adora fígado e rim. Se bem que eu também adoro uma dobradinha.

Comida é assim mesmo. Ninguém explica a preferência e a ojeriza do paladar. O paladar pode ser dependente e volúvel, mas é genioso que só.

6 de fevereiro de 2010

JORGE-MIGUEL

Cara-pálida, tu te lembras de morto-vivo?
A clássica brincadeira infantil, não eu. Ainda não lembraste? É aquela onde a gente fica dizendo MORTO! e a gurizada tem que se agachar. VIVO! e a turminha tem que ficar em pé. Preferencialmente se faz um gesto com a mão para cima e para baixo, ao contrário da ordem verbal, só para confundir, e comandando bem rápido uma sequência de MORTO, MORTO, VIVO, MORTO, VIVO, MORTO, MORTO. Quem erra sai, quem arrebenta o joelho também, ganha o último pentelho que sobrar.

Pois eu e Fernanda inventamos uma atualização da brincadeira. Chama-se JORGE-MIGUEL. O conceito é o mesmo, mas essa o Ronaldo Gorducho e eu podemos brincar também. Funciona assim:

Quando gritar JORGE!, tem que fazer uma cara assim:


Quando gritar MIGUEL, tem que mudar a fisionomia assim:


Geração Miojo

Montagem sobre foto de Bruno Schultze

"Os internautas mais jovens estão perdendo o interesse nos blogs e se voltando cada vez mais para formas mais curtas e portáteis de comunicação pela rede". Assim começa a matéria da BBC Brasil dando conta das conclusões de uma pesquisa feita em solo estadunidense. Na verdade, nenhuma surpresa, sem contar que é bem provável teríamos no Brasil o mesmo diagnóstico. Mesmo assim, fiquei elucubrando com a frase de um estudante justificando a perda do interesse nos blogs nestes termos: eles precisam de rapidez e “as pessoas não acham a leitura tão divertida”.


Sim, eles precisam de rapidez e ler toma tempo. Assim como falar toma tempo, por isso talvez cada vez menos diálogos inteligíveis. Assim como se relacionar toma tempo, por isso melhor ficar ou tc. E eu me pergunto, rapidez para quê? Para sobrar mais tempo de não fazer nada? Para ter mais informação e menos formação? Aliás, o que se faz com tanta informação? Onde o exercício do ser? Onde a diversão? Onde?

*¨*

Confesso me inibi e não intitulei essa postagem como queria. Mas escrevo agora na lata: Ejaculação Precoce. É essa a impressão que tenho quando penso em tanta rapidez. Fast food, fast foda. Se bobear, ao mesmo tempo.

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Longe de mim pretender generalizar. Nem estou irritado, estou mais para preocupado. Sou um típico personagem da geração X e temo muito pela dificuldade da geração Y encarar o fracasso (porque as coisas necessariamente não são como ela quer que seja) e especialmente pela geração dos meus filhos, a chamada geração Z, a geração tudo ao mesmo tempo para ontem. Duvido que um deles tenha chegado até aqui.

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Eu sei, eu sei. Tô velho. Ou será inveja?

5 de fevereiro de 2010

Baiacu


Nem comentei, mas estou indo à academia dia sim, dia não, desde o início do ano, tentando não virar Adamastor. Se não entendeu o mote leia esse post e veja a minha foto com a carcaça da pinaúna que Marcus me deu.
Cara-pálida, não tem sido fácil. Eu me sinto um baiacu fora d’água ao lado daquela garotada malhando, sem suar (não é caipira falando sensual) e eu molhadinho, com a língua pra fora, até os pelos doendo.
O detalhe é que Zezé animou-se e vai comigo, tornando a humilhação ainda maior. Ela corre a 8,5 km/hora por 6 km e eu ando a 4,5/5,0 km/h por uns 4 km.
Essa situação me fez lembrar da engraçadíssima crônica abaixo, absolutamente fidedigna, cruelmente real. Infelizmente desconheço o autor que, se escreveu com pitada autobiográfica, pelo tempo que esse texto circula na rede, já deve ter partido dessa para melhor, gordinho e com o tríceps murcho.

Diário de um Cinquentão na Academia
Acabei de completar 56 anos. Minha mulher me presenteou com uma semana de treinamento físico em uma boa academia. Estou em excelente forma mas achei boa idéia diminuir minha "barriguinha". Fiz reserva com a "personal trainner" Nádia, instrutora de Aeróbica e modelo de 26 anos. Foi recomendado levar um diário para documentar meu progresso, que vai transcrito a seguir:

Segunda: Com muita dificuldade levantei-me às 6 da manhã. O esforço valeu a pena. Nádia, mais parecia uma deusa grega: ruiva, olhos azuis, grande sorriso, lábios carnudos e corpo escultural. Inicialmente, Nádia me fez um tour, mostrando os aparelhos. Comecei pela bicicleta. Ela me tomou o pulso, depois de 5 minutos, e se alarmou, pois estava muito acelerado. Não era a bicicleta mas ela, vestida com uma malha de lycra coladinha. Desfrutei do exercício. Ela me motiva muito, apesar da dor na barriga, de tanto encolhê-la, toda vez que ela passava perto de mim.

Terça: Tomei café e fui para a academia. Nádia estava mais linda que nunca. Comecei a levantar uma barra de metal. Depois se atreveu a por pesos!!! Minhas pernas estavam debilitadas, mas consegui completar UM QUILÔMETRO. O sorriso arrebatador que Nádia deu me convenceu de que todo exercício valeu a pena... era uma nova vida para mim. Que felicidade... que mulher...!!!

Quarta: A única forma como consegui escovar os dentes foi colocando a escova sobre a pia e movendo a cabeça para os lados. Dirigir também não foi fácil: me doía o peito. Estacionei em cima da calçada... Nádia estava impaciente pois meus gritos molestavam os outros sócios. Sua voz estava um pouco aguda a essa hora da manhã e quando gritava me incomodava muito. Meu corpo doeu inteiro quando ela me colocou uma cinta para fazer escalada. Para que merda alguém inventa um treco para se escalar quando isso já está obsoleto com os elevadores? Nádia me disse que isso me ajudaria a ficar em forma e desfrutar a vida... ou alguma dessas merdas de promessas.

Quinta: Nádia estava me esperando com seus odiosos dentes de vampiro. Cheguei meia hora atrasado: foi o tempo que demorei para colocar os sapatos. A desgraçada da Nádia me colocou para trabalhar com os pesos. Quando se distraiu, saí correndo e me escondi no banheiro. Mandou um outro treinador me buscar e como castigo me pôs a trabalhar na máquina de remar... e me ferrei.

Sexta: Odeio a desgraçada da Nádia. Estúpida, magra, anêmica, chata e feminista sem cérebro! Se houvesse uma parte do meu corpo que podia se mover sem uma dor angustiante, eu partiria no meio a vaca que pariu essa porra dessa mulher. Nádia quis que eu trabalhasse meus tríceps... EU NEM SEI O QUE É UM TRÍCEPS !!! E se não bastasse me colocar o peso para que o rompesse, me colocou aquelas merdas das barras... A bicicleta me fez desmaiar e acordei na cama de uma nutricionista, uma idiota do caralho que me deu uma catequese de alimentação saudável, claro.

Sábado: A filha da puta da Nádia me deixou uma mensagem no celular com sua vozinha de lésbica assumida, perguntando-me por que eu não fui. Só com a vozinha me deu gana de quebrar o celular e depois encher a cara daquela vagabunda de porrada, porém não tinha certeza se teria força suficiente para levantá-lo, inclusive para apertar os botões do controle remoto da tevê estava difícil...

Domingo: Pedi ao vizinho para ir à missa agradecer a Deus por mim por essa semana que terminou. Também rezei para que o ano que vem, a filha da puta da minha mulher me presenteie com algo um pouco mais divertido, como um tratamento dentário de canal, um cateterismo ou um exame de próstata!

foto do baiacu de Rodrigo Sulzbach Chiesa, daqui.

Macaco, olha teu rabo


O texto é como eu, velho, mas atual. Paulo Coelho publicou em suas colunas semanais. Ainda estou à procura do autor do desenho e em qual jornal saiu a tira acima. Clique na imagem se os zóios já não ajudam. E pare de olhar a minha sacola!
Em tempo: Não sei se se trata do professor e doutor Gilberto de Nucci, famoso médico farmacologista e professor da USP e Unicamp, que nesta controvertida entrevista à FAPESP disse, dentre outras coisas que "pelo menos dois terços dos medicamentos atuam como placebo. Não produzem efeito".

Não só ela


Não estou com vontade alguma de falar sobre politicagem e eleições. Só achei engraçado e criativo.

4 de fevereiro de 2010

Excelente para o turismo


2 de fevereiro de 2010

Voltando aos velhos assuntos


Hipertensão Arterial Sistêmica

A primeira reação que tive ao saber da crise hipertensiva do presidente Lula e perceber o destaque da mídia sobre o episódio foi de puro ranço. Jocosamente pensei: é, senhor presidente, viajar cansa. Considerei exagerada a repercussão. Afinal, teve apenas uma crise hipertensiva isolada e, no Brasil, a Sociedade Brasileira de Hipertensão estima que 30% da população adulta sofra de hipertensão arterial sistêmica (HAS). Na Bahia que é a Bahia, e aqui peço perdão aos amigos baianos pela brincadeira carinhosa pero mui preconceituosa (a informação é verídica, o estereótipo creio que não), mais de 23% da população padece da doença crônica.

Eu convivo com ela desde os meus 20, o presidente já chegou aos 64. Fumante e apreciador convicto de uma boa cachacinha, levando a vida atribulada de coquetéis, jantares, decolagens e aterrissagens, não é de se estranhar que o corpo tenha reclamado. A diferença é que eu não tiro licença depois da internação. Nas crises brabas, eu me interno e já saio pro batente no dia seguinte, sem nenhum médico defendendo o descanso, só a esposa (no começo, depois ela também acostumou) a dar atenção. Aqui para o ranço.

Avaliando mais friamente, depois de esgotado o assunto, vejo que o acontecimento propiciou uma larga divulgação da chamada doença silenciosa. Toda a imprensa a esclarecer e propagar os cuidados necessários para evitar as doenças crônicas renais, os infartos e os AVC's. Nunca é demais lembrar. Os medicamentos hoje à disposição permitem o seu controle e muitos deles estão disponíveis pelo SUS, embora eu prefira pagar pelos meus (opção de cunho pessoal). No mais, é cuidar da alimentação (eliminar drasticamente o sal), parar de fumar, parar de beber e praticar exercícios diariamente. Parece simples, mas não é. Se for analisar, dos chamados prazeres carnais sobrou só o sexo. Acho que é por isso que só penso naquilo!

Depressão

Hoje me superei. Sonhei que estava com depressão! Acordei aliviado por não estar tão mal quanto no sonho. Aí a mente ficou perscrutando o coração e vice-versa ao contrário. De tanto remexer entrei em pânico. Não sei como consegui ir trabalhar. Mas consegui e é isso que importa.

31 de janeiro de 2010

A melhor hora do dia


A melhor hora do dia na verdade dura apenas alguns minutos. É quando o barulho da rua me convida a mais um dia de trabalho, a claridade trespassa as persianas, o corpo descansado reclama espreguiçamento e o espírito retorna após importantes momentos de liberdade.
Tudo isso justificaria a melhor hora do dia, mas a melhor hora do dia seria nada sem o abraço do meu amor. Cabeça encostada no meu ombro, membros entrelaçando troncos. Suspiros e silêncio. O meu amor é como uma tomada onde recarrego minha bateria. Não, tomada não, tomada dá uma conotação sexual grotesca e não há nada de grotesco na intenção do aconchego. Melhor talvez dizer que penetro sua aura. Não, penetro também não é apropriado. Há uma conjunção de auras. A minha dentro da dela. Mas que diabos, será que minha mente só converge à malícia?

30 de janeiro de 2010

Desabrigo


Faz 30 dias que chove, lá fora e dentro de mim.
Eu também me inundei.


*¨*

Faltou água, anunciou a emissora de rádio local, na cidade inteira. Na minha casa já são 12 horas sem a preciosa, a caixa d'água já esvaziou. O jeito é botar os baldes no quintal e tomar banho de chuva. Como cantaria Alanis Morissette: Isn't it ironic... don't you think?

Foto de Flávio Oliveira/Jornal O Liberal - Enchente em Santa Bárbara d'Oeste, perto do DAE - Departamento de Água e Esgoto.