21 de novembro de 2009

Zelão


Zelão era foda. Vivia profetizando "Isso vai dar merda!". E dava. Na sua presença a galera evitava comentar as coisas mais importantes. Também, pudera, foi o Vasconcelos anunciar casamento e lá veio Zelão vaticinar o seu "Isso vai dar merda!" A alegria do Vasconça durou seis meses enquanto a pensão já dura três anos. O Ataliba, coitado, preparou-se o verão inteiro para participar da Maratona Internacional de São Paulo em 2009. Fez tudo certinho, contratou personal trainer, fez avaliação física, só cometeu a besteira de contar pro Zelão. Literalmente deu merda, no meio da prova uma caganeira como jamais havia sido depositada em um banheiro químico, com direito a papel higiênico no finalzinho.

Pois semana passada Zelão convidou toda a turma para testemunhar a realização de um sonho: voo de parapente em Pedra Grande, Atibaia. Ninguém ousou devolver o "Isso vai dar merda!" em voz alta. Só pensaram.

Missa do sétimo dia é hoje, 15h na Igreja Nossa Senhora do Monte Serrat, no Largo de Pinheiros.

foto escandalosamente surrupiada daqui, do picasa do Marcos Preto, em Pedra Grande, Atibaia/SP. Espero que não dê merda.

20 de novembro de 2009

Hoje Zumbi sou eu

Passeata em Sampa - 2007 / Foto: José Luis da Conceição/ Agência Estado

Hoje na Av. Brasil, em pleno Dia da Consciência Negra, trabalhei a contragosto (quero meu feriado de volta!). Fui de tarde retirar o resultado do exame do CINCOR e em frente ao Centro de Cultura e Lazer havia uma blitze, um acidente, um fuzuê.

Na minha frente, iam duas motos. Todos em fila indiana, 20 km/h, quase parando. O policial mandou parar a segunda, sacando a arma do coltre e apontado na direção do motoqueiro e do garupa. A que passou tinha um branquicelo. A que parou dois negros.

*¨*
O resultado da cicloergometria infelizmente apontou novamente um infradesnível do segmento ST horizontal. Vou aguardar a avaliação do cardiologista antes de tomar um porre com Sidra Cereser e Espuma de Prata. Tô puto da vida.

Parafraseando aquela faixa de 2007, hoje Zumbi sou eu.


Toshiro


Ontem eu vi japoneses de porre, sentados no meio-fio, perto da rodoviária, e me lembrei de Toshiro. Desempregado há meses, quando soube da sua contratação saiu para comemorar com a esposa e acabaram dormindo no gramado da praça perto de sua casa, entre latinhas de cerveja e os restos da pizza portuguesa. Foram acordados pela claridade solar e pelo arrulhar dos pombos; atrasado, quase não passou no exame médico.

Toshiro me contou uma dúzia de vezes essa história, na primeira eu achei graça, nas demais fiz de conta nunca ter ouvido e, num misto de gentileza e falsidade, simulei risos também.

Boa pessoa, não era um trabalhador excepcional, sua inteligência mediana todavia era depreciada por sua instabilidade emocional. Sob pressão Toshiro espanava, e não guardava desaforo. Se nas relações profissionais se continha, no trânsito descontava com juros e correção monetária. No pior estilo bateu-levou, fiel ao olho por olho, dente por dente, dirigia feito um... um paulistano, fechando quem o fechava, ultrapassando quem o ultrapassava, buzinando a quem buzinava e, ilogicamente, proferia todo o repertório de xingamentos clássicos dos motoristas da metrópole.

Numa quarta-feira, lembro disso por causa da feijoada na bandeja, sentei-me ao seu lado no refeitório. Estava cabisbaixo, não engolia sequer um paio.

- Toshiro, tudo em cima?

- Eu me ferrei Chorik. Vindo pra cá, levei uma fechada e saí atrás. No farol vermelho eu grudei meu carro no lado e comecei a meter o pau no motorista. Era o senhor N, Chorik. Era o senhor N!

Senhor N era o nosso diretor.

Ele não dispensou Toshiro. Maquiavelicamente contemporizou, afirmou ser fato corriqueiro, essas coisas aconteciam no trânsito mesmo, afinal vivemos todos estressados e coisa e tal, estava assim plenamente desculpado. Agradecido, Toshiro passou a trabalhar mais, sem ganhar hora-extra, nem reclamar. Nunca foi promovido. Morreu numa briga de trânsito.

19 de novembro de 2009

Muadiê Martha

Parece muito mais, mas está fazendo apenas um ano que eu conheci Martha Galrão, por intermédio do Maria Muadiê. Conheci "numas", porque distância, tempo e grana não permitiram ainda uma encontro com a verdadeira Bahia - no máximo flertei com a Bahialândia, tão odiada por ela. Desde que fui fisgado pela poesia de Martha não tirei mais a boca do anzol (e nem esperneio!). Minha admiração por seus versos e prosas é crescente. Também não é segredo minha reverência à encantadora relação dela com Haroldo Abrantes, história de amor registrada entre palavras e fotos, escritos e olhares, eles reafirmaram (sem saber) a minha crença particular que o verdadeiro amor é possível (e belo) nesses tempos loucos. E não poderia deixar de citar Beatriz (que escreve e fotografa tão bem que não sei exatamente a quem puxou) cujo blog acompanho desde a filmagem de um certo banho em Hatsuharu, o gato.

Os poemas abaixo são uma amostra que Martha gentilmente me permitiu emprestar do seu blog, a fim de enfeitar o meu.

Tempo tempo passará
dê-me tempo de criar
Derradeiro ficará
dê-me tempo de curar
a minha dor
pe que ni na.

*¨*
Poesia

Escrevo nomes
como quem passa batom
e pinta de vermelho
a boca

talvez porque sofra
desse destino
de me balançar
em rede tão fina.

Escolho pernas
cruzo e descruzo palavras
prolongo sílabas e olhares

E porque quero dançar
procuro poesia
no céu da sua boca.

As palavras
doidas pra tecer mistérios

Confundo lábios e letras.

*¨*
De moderna não tenho nada.
Nem quero ter.
Quero ter é tempo,
quando menstruar,
esperar o sangue correr,
formar uma poça,
fazer desenhos
e escrever promessas de mulher.

*¨*
Saudade

o que me mata
é o silêncio
e o beijo
não ser na boca

o que me mata
é a falta
de seus olhos
nos meus

o que me mata
é a ausência
de mãos
e palavras

o que me mata
é esse breu.

18 de novembro de 2009

A idade real


Quem tem Nintendo Wii ou já jogou o Wii Sports conhece certamente um modo de "desafios" chamado Wii Fitness, uma miscelânea de minigames envolvendo as modalidades esportivas do joguinho onde, consoante o seu desempenho, o jogador recebe uma estimativa de idade, como se fosse uma nota.

Na primeira vez, obtive um lamentável 64 anos. Puto da cara, louco por uma revanche, quis jogar de novo, mas isso só é possível no dia seguinte e eu não tenho assim tanto tempo para rejuvenescer.

Conclusão: fiquei com os 64 anos entalados até hoje; mas somente até hoje.

Como sabem, fui fazer o bendito teste ergométrico. O resultado só vou saber no dia 20. Até lá espero ter recuperado o fôlego, melhorado das câimbras, ter voltado a sorrir, dentre outras coisas. O exame ocorreu simultaneamente com o de uma senhora de uns 75 anos. Ficamos lado a lado, separados por uma fina divisória de gesso, o médico e a enfermeira monitorando ambos e a senhora falando o tempo todo.

Não preciso dizer quem pediu arrego primeiro, preciso?

17 de novembro de 2009

Será tarde?

Na minha estapafúrdia trajetória como executivo eu pude usufruir de salas maiores, mas a atual tem vista para a avenida mais bonita da cidade, um andar acima do nível da calçada, um ângulo privilegiado entre o chão e as folhas das dezenas de palmeiras que enfeitam o canteiro central. Quando a vista cansa de ver números e gráficos, desvio o pensamento para fora do aquário. Flagro garotas saradas em sua caminhada matinal, acompanho-as até onde as janelas me permitem sonhar (juro não notar os seus corpos torneados). Minha vontade é de ir atrás, não exatamente delas, mas de seus estilos de vida, sem salas, números e gráficos. Será tarde?

Amanhã eu encararei a esteira ergométrica pela terceira vez nos últimos seis anos. No final de 2005 o resultado me levou às pontes de safena, no de 2007 à colocação do stent. Eu sei que o final de 2009 já está escrito, só não me foi revelado. Tenho medo e queria deixar isso registrado no blog, por mais ridículo que possa ser.

15 de novembro de 2009

Falta de assunto


Onze colegas da empresa se reuniam toda última terça-feira do mês no Ponto Chic da Paissandu. Sempre havia um compromisso inadiável na agenda de um, e esse um era compulsoriamente o temário da noite. Entre um bauru e um chopps a execração ia dos trajes aos trejeitos, dos contornos aos adornos, um exercício grupal de indiscrição e maledicência. E muitas risadas sacanas, coisa de macho.
Um dia todos compareceram. Nunca mais se reuniram.

14 de novembro de 2009

Bruta flor

Quando dei por mim os meus quereres haviam sido todos preteridos, submetidos ao pó do desânimo, abandonados no porão obscuro do esquecimento. Há tempos venho sobrevivendo à custa dos deveres. Não que isso seja de todo ruim. O homem necessita muito dos deveres, ninguém deseja o caos, eu ao menos não concebo a felicidade sem o respeito ao outro.

Mas os deveres sem os quereres me são insuportáveis, e logo sobrevém a revolta, seguida da culpa, essa forma dolorosa que Deus encontrou para o nosso amadurecimento. O homem sem querer e sem dever é inútil e a inutilidade é rota certa rumo à tristeza. Não quero seguir por essa trilha.
A felicidade talvez esteja em uma conjunção harmoniosa dos quereres e dos deveres. Ou, quem sabe, os seres angelicais tenham sacado algo muito mais difícil, total despreendimento, absoluta compreensão da impermanência das coisas. Talvez tenham feito dos seus deveres os seus quereres.

Dai-me forças Pai, porque estou tão longe dessa condição que esmoreço.



13 de novembro de 2009

Inexplicações

A depressão não é um bicho-papão que sai do meu armário de noite para roubar a energia do meu grito. Antes fosse. Para mim, a depressão é uma grande sereia. Seu feitiço condutor me convida ao naufrágio. Eu não gosto tanto assim de peixe, mas o seu canto, ai de mim, um abominável adorador de peitos, só me faz ver a parte de cima. Quando minhas mãos chegam na parte escamosa já estou no fundo do mar, abraçado com o polvo. Em outras palavras, por mais que se estude, que se diga, que se especule, ninguém entende de verdade a origem da depressão, muito menos o ser depressivo. Se pelo menos todas as pessoas aceitassem isso como uma doença eu não me sentiria assim tão culpado por não ter tampado os ouvidos.

Saiu esse mês mais uma matéria falando da depressão na revista Vida Simples. Se você conhece alguém com essa "frescura", por favor leia.

Contos da carochinha

Carochinha por carochinha, eis uma versão plausível para o apagão.