10 de novembro de 2009

Japoronguices (1)

Martha, num dos posts abaixo, mandou uma ótima pergunta:

- Chorik, vc não tem vontade de aprender japonês?

Essa foi a resposta mais séria que consegui elaborar.

Não, Martha, nunca tive vontade de aprender a língua de meus avós. Tive necessidade, mas isso foi há tempos, tempos difíceis, aliás, quando garoto tímido, bocó introvertido, trajando o corpo pelo avesso, convivia com crianças às quais era imposta a socialização numa colônia japonesa fechada, desconectada da realidade brasileira, recém-saída da vergonha de uma derrota na guerra e desconfiada, muuuuito desconfiada. Aí na Bahia talvez não se tenha ideia do quão fechados já foram os redutos nipônicos no Estado de São Paulo, principalmente no interior. Se puder, leia o livro Corações Sujos, do Fernando Morais e compreenderá melhor esse universo.

Os olhos puxados (ou rasgados, como queira) e o não-conhecimento da língua me apartaram dos dois grupos. Era japonês demais para os brasileiros e brasileiro demais para os japoneses.

No inicio da década de 70 era comum a gurizada nipo-brasileira ser submetida, ou melhor, freqüentar, paralelamente ao primário, ao “nihongaku”, onde se ensinava muito mais que a ler e escrever japonês. A preservação da cultura, dos hábitos, das tradições milenares de um povo em terra tão distante, tudo isso deveria me fascinar, mas nunca me senti partícipe disso, tampouco tive interesse na manutenção dessas ditas raízes ancestrais. Respeito, admiro algumas qualidades, mas não tenho tesão pela cultura japonesa.
Em parte isso se deve ao fato de meus pais serem brasileiros também, filhos de japoneses (nisseis), e eu apenas da terceira geração (sanseis). Mas também porque eles nunca tiveram chance de ir ao "nihongaku". Vieram todos de uma origem bastante humilde, agricultores forjados na marra, sequer puderam terminar o primário, tendo de trabalhar desde a infância para ajudar no sustento da família.
Por isso em casa não se falava o japonês, salvo as expressões mais simples e os palavrões. A maioria das palavras eram misturadas ao vocabulário brasileiro, e a construção da frase era sempre baseada na língua portuguesa. Disso surgiu quase um dialeto exclusivo, só falado na minha família. Por exemplo: arroz branco em qualquer lar nipônico é shiro gohan. Em casa era gohan branco, e quando minha mãe fazia um risotinho eu chamava de “mama bonito”, uma corruptela da expressão ítalo-brasileira “mama mia, que bonito”. Quase uma babel sem torre.
Espero ter respondido. Amanhã eu posto a versão alternativa.

8 de novembro de 2009

Mas já?

Abri a Istoé e dei de cara com uma matéria falando do remake do musical Fama, do Alan Parker. Meu primeiro pensamento foi: mas já? Aí me toquei que essa película é de 1980, ou seja, quase 30 anos atrás! E a lista das refilmagens não para por aí. Novas versões de Os Caça-fantasmas, Robocop, Karatê Kid e História Sem Fim chegarão em breve!
Meu choque com a velocidade do tempo é tamanho que provavelmente nem vou reparar quando repetir meus pais com aquela clássica observação de desdém:
-- Não gostei, o original era muito melhor...

O portal da discórdia

Um dos meus primeiros posts sobre a cidade tratava desse pórtico. Veja aqui o que escrevi naquela época.
Pois a polêmica continua e a enquete que a prefeitura está realizando acabou virando notícia do Bom Dia Brasil, na Globo. Mais do que o inusitado portal, as entrevistas com os moradores são um show à parte.

Agradecimentos à AP e ao Bernardo pelo toque que me deram.

Atualização:

Comcult disponibiliza postos volantes para votação
Para auxiliar a enquete sobre o portal construído na entrada da cidade o Comcult (Conselho Municipal de Cultura de Americana) disponibilizará, a partir desse sábado (07/11), postos volantes e monitores que farão cadastramento online de votos. A votação encerra dia 01 de dezembro.
A enquete organizada e lançada no site do Conselho (www.comcult.org.br) no final de outubro contabiliza, desde então, 698 votos válidos (cada participantes responde três questões no total)
Segundo a presidente do Comcult, Magali Berggren Comelato, a meta será alcançar cerca de 20 mil votos válidos, cadastrados a partir de nome completo, endereço e número de CPF do participante. “Considerando que a urbanidade seja produto, condição e meio das relações sociais, o objetivo é entendermos a importância em verificar, junto à população residente, muito mais que o incomodo provocado pelos ‘gigantes’, mas o quanto essa intervenção urbana seja ou não relevante para a sociedade americanense”, considerou.
De acordo com os organizadores as informações fornecidas são importantes para dar credibilidade à ação e são confidenciais. “Todos os dados pessoais ficam cadastrados em sistema e o acesso é restrito, porém, os números de votação podem ser acompanhados por todos em tempo real”, confirmou Magali.

Confira onde e quando serão montados os postos volantes:

Aos domingos na ‘Feira do Zanaga’
Horário: das 8h até 12h
Às segundas-feiras: Terminal Rodoviário
Horário: das 17h às 19h
Às terças-feiras: ‘Feira Colina/Cariobinha’
Horário: das 8h às 12h
Às quartas-feiras: ‘Terminal Rodoviário
Horários: 16h às 19h (Terminal Rodoviário) e 19h às 21h30 (Projeto Estação Vitrine)
Às quintas-feiras: ‘Feira Cidade Jardim’
Horário: das 14h às 16h
Às sextas-feiras: Terminal Rodoviário
Horário: das 14h às 19h.
Aos sábados: Calçadão/Fernando de Camargo
Horário: das 9h às 12h

Depois dizem que americanense não tem opção de lazer. Maldade pura sô!

Dia da melancia


Aos poucos desvendo os costumes do interior. O dia 2 de novembro por aqui também é conhecido como o dia da melancia. É que no entorno dos cemitérios da região instala-se uma verdadeira feira livre, com direito a pastéis, caldo de cana, churrasquinho de gato, balões para a criançada e melancia, muita melancia. Em um deles ouvi dizer no rádio que havia 4 caminhões repletos da fruta estacionados. Para saber se alguém está vindo do cemitério é só reparar. Se estiver carregando uma melancia é certeza que sim. Enfim, é um evento. Ah! Tem flores também, mas para que servem as flores mesmo?

Depois dizem que americanense não tem opção de lazer. Maldade pura sô!

Pérola

Um dos vinis mais gastos no meu toca-discos Gradiente foi esse aí de cima, o Pearl, trabalho inacabado de Janis Lyn Joplin, lançado em 1971, alguns meses após sua morte por overdose acidental de heroína e álcool. Minha mãe não aguentava a "gritaria rouca da drogada". Eu curtia muito na adolescência, hoje ouço com moderação.

Pearl, apelido da cantora, tem alguns clássicos preciosos. Produzido por Paul A. Rothchild (The Doors), conta com uma baita banda de barbados, a Full Tilt Boogie Band, com John Till na guitarra, Richard Bell no piano, Brad Campbell no baixo e Clark Pierson na batera, além de Ken Pearson no órgão.

Lado A
"Move Over" (Janis Joplin) - 3:43
"Cry Baby" (Jerry Ragovoy, Sam Bell) - 3:58
"A Woman Left Lonely" (Dan Penn, Spooner Oldham) - 3:29
"Half Moon" (John Hull, Johanna Hall) - 3:53
"Buried Alive In The Blues" (Nick Gravenites) - 2:29

Lado B
"My Baby" (Jerry Ragovoy, Mort Shuman) - 3:26
"Me and Bobby McGee" (Kris Kristofferson, Fred Foster) - 4:33
"Mercedes Benz" (Janis Joplin, Bob Neuwirth) - 1:48
"Trust Me" (Bobby Womack, Michael MClure) - 3:17
"Get It While You Can" (Jerry Ragovoy, Mort Shuman) - 3:27

Eu balançava a cabeça e os pés toda vez que ouvia Move Over, era inevitável (ainda hoje é). Cry Baby é selvagemente dolorida, me esgoelava todo tentando acompanhá-la. A Woman Left Lonely é o oposto, de uma deliciosa pieguice, muito cuti-cuti. Half Moon eu não lembro como era! Buried Alive in the Blues ficou sem o vocal de Janis (ia gravar no dia seguinte ao de seu falecimento) e eu não curtia muito não, então era hora de mudar de lado (desconfio que eu já mudava no Half Moon). My Baby eu achava um tesão. Me and Bobby McGee de autoria do seu então namorado Kris Kristofferson (lembram dele com Barbra Streisand no remake de Nasce uma Estrela?) estourou nas paradas, é um country meio assim-assim, sorry aos que curtem. Mercedes Benz é masterpiece, a risada mais sacana já registrada. Trust me tem uma melodia ótima, adoro aquela guitarrinha chorando. Get It While You Can é um blues muito bom, mas quase não terminava de ouvir, porque eu botava em Move Over de novo. E olha que naquele tempo tinha que tirar o braço, virar o disco e posicionar a agulha, um baita trabalhão, inda mais para um pré-parkinson como eu.

Essa lembrança é culpa de Kátia Borges, que no próximo dia 10 estará na Livraria Tom do Saber (Salvador/BA) lançando o seu mais novo trabalho, Uma Balada para Janis, mais um da série Cartas Bahianas (Editora P55). Do jeito que vai vou ficar com a coleção inteira!


7 de novembro de 2009

Um antidepressivo diferente


Ontem Gugu Liberato entregou uma casa reformada aqui em Americana. Três mil pessoas se aglutinaram para ver. Os ambulantes fizeram a festa, vendendo de cachorro-quente a brinquedos. Segundo li no Todo Dia, jornal da região, um aposentado de 50 anos acreditava que a muvuca ajudou na depressão da sua mulher. “Desde que eles começaram a mexer na casa nós passamos aqui todo dia. Acho que foi uma boa distração. Minha mulher até me convidou a comer um lanche com ela outro dia. Há muito tempo não fazia isso, porque ela estava em depressão”, disse. Ele saiu do local anteontem às 23h e voltou ontem às 8h.

Depois dizem que americanense não tem opção de lazer. Maldade pura sô!

Quem sabe ainda dê tempo

No dia de finados eu escrevi todos as postagens da semana e programei para publicação em cada dia. Não deveria existir essa opção e, em havendo, eu não deveria utilizá-la porque acaba não sendo uma postagem espontânea, ao menos não reflete a situação ou a emoção do dia e da hora em que foi publicada.

Bobagem. Fosse a questão da espontaneidade a única envolvida e eu não me sentiria assim, fraudando esse espaço virtual que me é tão caro.

É bem verdade que não costumo me utilizar desse expediente, muitas vezes eu publiquei três, quatro postagens no mesmo dia. E aí uma constatação. A vida anda tão corrida que as pessoas, mesmo os amados e-amigos, só tem tempo para ler a última, a quentinha. E postagens queridas, ao menos para quem as escreveu, jazem sem jamais terem sido lidas nesse grande cemitério de palavras que são os blogs intimistas.

É possível que muito do que eu escreva não mereça melhor endereço do que um lixão de pensamentos insossos, daqueles redigidos às pressas, sem muito critério e com pouquíssimo bom senso. Mas a vontade de escrever vem também da vontade de ser lido. A sensação de alguém me lendo é que me move quando escrevo. Nessa virtualidade insana, um comentário é o que nos liga de verdade ao outro. É mais do que carência, é querência.

*¨*
Pois meu amigo Marcus me pergunta onde foi parar o post da cachorrada. Eu o deletei, não era um texto propriamente dito, era uma brincadeira que fazia algum sentido naquela manhã de finados, não na manhã de sexta.

Hoje eu me sinto exausto, perdendo uma batalha para a qual Deus me preparou concedendo-me uma família nota mil, uma companheira querida de tantas vidas, mentores espirituais dos mais abnegados, e-amigos generosos, a inteligência e a sensibilidade necessárias ao cumprimento de um missão muito simples. Vim para aprender a servir e infelizmente não tenho servido nem a mim. Porque para servir é necessário antes de mais nada saber amar e isso eu ainda não aprendi. Quem sabe ainda dê tempo.

*¨*
Volto ao menos com a foto do Yuppi, the yuppie e da Emily Dickinson.

Falling Down

Cena de Um dia de fúria (1987). Clique na foto se quiser ver o vídeo.

Diário de bordo, data estelar, 2009.11.07, Cadete Chorik direto da nava Terra, audaciosamente não saindo do lugar
Ontem tive uma recaída feia, fui parar de novo no PS. Já estava deitadinho na maca quando uma simpática médica chegou falando em ótimo japonês Ohayou gozaimasu, Horikawasan, o-genki desuka? (1) e eu só no nihongô wakarimasen(2). Ela leu a minha ficha corrida e soltou em português um: Horikawasan, nós somos corpo e espírito. Seu espírito eu não sei, mas o corpo reclama um descanso. Dois dias no mínimo. Vamos parar um pouco e refletir? Ao que eu retruquei: Tudo bem, mas preciso estar inteiro ainda hoje às 13h30, tenho uma reunião com a diretoria e não posso faltar. Ela disse: Aqui você não tem escolha, eu estou mandando, não estou pedindo. E saiu do quarto com um sorriso maquiavélico.

Resumindo, ela me deu um sossega-leão e fui acordar às 20h30. Às 23 h já estava dormindo de novo. Se me mandarem embora na segunda, a culpa é dela. Se eu ainda estiver vivo, também.

*¨*
Small world
Perguntei à doutora onde aprendera a falar japonês. Em sua terra natal, São Gotardo, em Minas Gerais, onde uma colônia japonesa e alguns gaijins (3), dentre eles seu pai, fundaram uma cooperativa agrícola, a mesma em cuja central eu trabalhei por 13 anos. Tanto o pai dela como eu temos okanê (4) pra receber no processo de liquidação da empresa, eu por direitos trabalhistas básicos, pois saí de lá com uma mão na frente e outra atrás, sem receber vários salários atrasados, FGTS de não sei quantos meses e a verba rescisória em si, isso tudo com 2 filhos e Zezé grávida de Nandinha.

Traduções
(1) Bom dia, Sr. Horikawa, como está?
(2) Não falo necas de piritiriba em japonês.
(3) Estrangeiro. No caso, brasileiros.
(4) Grana, bufunfa, tutu, cascalho, dindim.


*¨*

Para uma breve aula de japonês, Os Mulheres Negras:

5 de novembro de 2009

Sobre beijos

Depois que beijei ela nunca mais beijei ninguém.


Meu primeiro beijo foi aos quinze em mulher de vinte e dois. Lucidalva desvirginou minha boca no baú do caminhão que levava todo o pessoal do supermercado onde eu trabalhava para a confraternização de final de ano.
Naquela sauna escura, segurando na carroceria e sentado em caixote de laranja lima, devo ter feito alguma coisa errado, pois bastou chegar ao destino e abrirem a porta para eu ser completamente ignorado pela moça. Ou foi pelo que não fiz?
Em compensação, naquela mesma semana dei o segundo, dessa feita em Berenice, menina da minha idade, colega da seção de feira. Foi na câmara frigorífica, na hora de buscar mercadoria para repor. Os nossos óculos até embaçaram. Poderia ter sido um beijo tão bom como o de Lucidalva, mas o buço de Berê me pinicava demais.

O terceiro eu já não me lembro. E o último eu não posso contar.

4 de novembro de 2009

Márgaris

Na minha classe do curso de datilografia no SENAC havia uma menina linda, com um nome peculiar: Márgaris. Cabelos louros cacheados nas pontas, sorriso arrebatador, estilosa que só vendo, ela foi meu primeiro amor platônico. Toda semana eu chegava mais cedo à aula, na esperança de encontrá-la sentada na escadaria. Mesmo sabendo que ela costumava chegar atrasada.

Eu batia veloz as teclas daquelas Remingtons, de fato seria reconhecido pela professora como sendo o melhor aluno desde que começara a lecionar. 220 toques por minuto, sem erros, minha marca era secretamente dedicada à doce Márgaris. No dia da prova final, acabei o texto antes dos demais e me virei para vê-la. Ela soltou um "nossa, como você é rápido!". Foi a glória! Eu existia para ela afinal, e com qualidade reconhecida.
Alguns meses depois eu a reencontrei na feirinha anual da Vila Madalena. Ela ainda mais estonteante, de óculos escuros, vestido riponga amarelo ouro, ladeado por um namorado grudento, comprando bijuterias numa barraquinha. Apesar do meu esforço, ela não me reconheceu. Senti uma pontada de dor irradiando do peito ao estômago, algo ainda não experimentado por mim até aquele dia. Só fui recuperar a postura quando um pensamento veio me salvar:

-Duvido que esse cara bata 220 toques por minuto.
*¨*
Nesse mesmo dia troquei uma ideia com Plínio Marcos, que vendia seu livro a pé. Mas essa já é uma outra história.